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AgTechs: Investimento no agro brasileiro por meio da inovação tecnológica

Experiência, rebeldia e resiliência podem render bons resultados ao agronegócio em um cenário repleto de incertezas – mas de enorme potencial

 

Praticamente todo empreendedor tem em mente que a inovação é a chave para o desenvolvimento, como propôs o economista Joseph Schumpeter no início do século passado. Mais do que enfrentar externalidades – e o agronegócio brasileiro as tem em profusão – inovar significa romper com práticas consolidadas e assumir o risco de buscar caminhos não mapeados.

No entanto, produtores rurais até sonham com drones e tratores autoguiados, mas só embarcam nesta aventura desde que já tenham visto seus vizinhos lucrarem com isso. Poucos são aqueles que se propõem aos riscos do pioneirismo, o que no atual cenário de incerteza pode ser entendido como uma postura antinatural.

As agtechs, startups que investem em soluções diferentes para problemas tradicionais do agronegócio, têm ocupado este espaço no mercado brasileiro: Nossas estimativas apontam que as agtechs receberam aportes superiores a US$ 200 milhões nos últimos anos.

Porém, para sobreviver neste ambiente é necessário não apenas investimento e ideias inovadoras. Mesmo em um setor disruptivo, a experiência na roça é fundamental para a difusão do conhecimento e das tecnologias desenvolvidas ao longo de anos de pesquisas e testes. Diante do volume de informações geradas, a tomada de decisão no ambiente agro é cada vez menos intuitiva. Grandes ideias surgem de maneira sistemática e amparadas no conhecimento e vivência no campo destes empreendedores.

Além disso, a inovação das agtechs requer uma dose de não-conformidade com as práticas consolidadas. Não há como promover transformações sem a adoção de práticas emancipadoras e criativas. Por exemplo, adotar uma sistematização responsável e sustentável na produção agrícola é por si só um ato de rebeldia, uma vez que se choca com uma cultura de produção que, sobretudo no Brasil, torna a transformação digital do agro um processo consideravelmente lento e caro. Assim, conhecer e romper com o status quo tecnológico é essencial nesse processo.

Nesse sentido, as agtechs entraram de vez no agronegócio como empresas que, sob uma base científica e tecnológica e propostas disruptivas, têm proporcionado ganhos significativos de produtividade, redução de custos e melhoria na percepção de riscos junto aos produtores. De acordo com o 2º Censo AgTech de Startups, 61% do corpo técnico dessas empresas é formado por graduados e especialistas e 39% por pós-graduados. Assim, podemos assumir que boa parte desses empreendimentos está, direta ou indiretamente, ligada às universidades.

Esta proximidade das fontes de conhecimento ajuda a explicar a proliferação de hubs de inovação, centros dedicados ao desenvolvimento de agtechs (no Brasil são em torno de 20), boa parte destes concentrada no Estado de São Paulo (em especial, no chamado AgTech Valley, na região de Piracicaba). A tendência é que as iniciativas desenvolvidas nesses hubs permeiem outras regiões de grande tradição e potencial agrícola de forma acelerada, atingindo escala, tão importante para esses negócios.

No entanto, as semelhanças com os valleys californianos não vão muito além da proposta. Devido a fatores como gargalos legais e infraestruturais, carência de garantias de propriedade intelectual e exiguidade de capital disposto a correr risco tecnológico, as transformações no agro brasileiro requerem um tempo maior para implementação. Da ideia ao produto final validado, exige-se dos empreendedores muita resiliência no enfrentamento desta base truncada, a qual dificilmente mudará em um estalar de dedos.

Mesmo assim, o agronegócio brasileiro continua um mercado de grande potencial, responsável por um quarto das riquezas geradas no país e um campo aberto à inovação tecnológica. Grandes ideias serão sempre bem vindas, e a tendência é que as parcerias entre produtores, investidores, universidades e agtechs sejam o caminho para a modernização estratégica do campo. Para empreendedores “startupeiros” isso significa aliar experiência, rebeldia e resiliência que tornam o compartilhamento de riscos do agronegócio uma aposta bastante promissora, sobre o qual nosso ecossistema inovador tem se desenvolvido com vigor.

 

*Joaquim Henrique da Cunha Filho é Doutor pela ESALQ/USP, Gestor do PecegeGo e Consultor de investimento da EsalqTec***.

**Pedro Forti é Mestrando em Administração pela UFPR e Pesquisador Convidado da WBGI/Pecege.

***ESALQTec é a incubadora de empresas da Esalq (USP – Piracicaba), que é a peça-chave do Vale do Piracicaba (AgTech Valley), como é conhecido o ecossistema de tecnologias do local, considerado o Vale do Silício do agro brasileiro.

 

Fonte: AgTechs: Investimento no agro brasileiro por meio da inovação tecnológica – Canal Agro Estadão (estadao.com.br)

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