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Manejo biológico das cigarrinhas-das-raízes na cana-de-açúcar

Por Alexandre de Sene Pinto

Existem várias espécies de cigarrinhas atacando cana no Brasil. No Nordeste a espécie comum é a cigarrinha-das-folhas, Mahanarva posticata, na Zona da Mata de Minas Gerais, M. rubicunda indentata, a cigarrinha-do-cartucho, e em todo o país, a cigarrinha-das-raízes, M. fimbriolata, é bem danosa. Entretanto, M. fimbriolata foi descoberta ser um complexo de espécies, predominando M. spectabilis, M. fimbriolata e ocorrendo também M. liturata, além de outras espécies não identificadas.

Os inimigos naturais nativos da cigarrinha-das-raízes são muitos, mas destacam-se a mosca predadora de ninfas, Salpingogaster nigra, o fungo Batkoa apiculata, que atua sobre os adultos, e os parasitoides de ovos Anagrus urichi e Acmopolynema hervali. Entretanto, o fungo-verde Metarhizium anisopliae tem sido o agente mais pesquisado, mais eficiente e mais utilizado no controle das cigarrinhas da cana-de-açúcar, tendo várias empresas comercializando esse agente.

Os trabalhos pioneiros de controle de M. posticata com M. anisopliae foram realizados em 1969, e em 1975 foram instalados os primeiros laboratórios para a produção do fungo nas usinas de Pernambuco, atingindo uma área de 520 hectares, entre 1970 e 1972. Contra M. fimbriolata, somente no Estado de São Paulo, na safra 2004-2005, o fungo foi aplicado em aproximadamente 200.000 hectares.

Esse fungo, por atuar nas fases ninfal e adulta e por ser facilmente produzido em laboratório, tem sido a melhor opção biológica dentre os agentes de controle existentes. O fungo M. anisopliae era aplicado no campo na forma de conídios, seja em suspensão aquosa, junto ao substrato (arroz). Essa foi a PRIMEIRA GERAÇÃO dos fungos. Posteriormente, os conídios passaram a ser separados dos grãos de arroz e aplicados em pós, diluídos em água ou em formulações simples em óleo. Depois as formulações líquidas ficaram mais complexas, com muitos inertes dispersores, aderentes etc. Hoje, começa uma nova geração a ser comercializada, onde os conídios são envolvidos por pequenos “pellets” que os protegem e os expõe apenas quando certa quantidade de chuva é acumulada.

Em condições ideais, o conídio, caindo sobre o inseto, emitirá um tubo e penetrará o tegumento deste, passando a se desenvolver no seu interior, até causar sua morte. As condições ideais para os processos de adesão, germinação e penetração, fases que levam um pouco mais de 8 horas, são baixa radiação ultravioleta, alta umidade e temperatura amena. Por isso, as aplicações devem ser realizadas ao entardecer ou no início da noite, pois haverá a formação do orvalho, temperaturas mais amenas e não ocorrerá a incidência de raios ultravioleta, maléficos para o fungo, ou em dias nublados e chuvosos ou com o solo sombreado pela cultura e com alta umidade do ar. Para o controle biológico de ninfas de Mahanarva recomendam-se, pelo menos, 5 x 1012 conídios viáveis hectare-1.

Outro fator que interfere no sucesso do controle é o monitoramento e a tomada de decisão de controle. O monitoramento é realizado caminhando-se numa única linha qualquer do talhão e a cada 20 m um ponto de um metro linear é avaliado quanto ao número de espumas presentes (Fig.1). Mais ou menos, uma espuma corresponde a duas ninfas. Ao terminar a linha, o monitoramento está finalizado. Esse novo esquema de monitoramento é tão eficaz quanto os tradicionais (dois pontos por hectare) e 60% mais rápido (Fig.2). Entretanto, se somente o fungo for ser aplicado, deve-se avaliar alguns desses pontos também contando-se o número de ninfas pequenas e grandes. O fungo só pode ser aplicado quando mais da metade das ninfas forem grandes, pois nesse momento todas elas já eclodiram de seus ovos no solo. O nível de controle da cigarrinha-das-raízes é de duas ninfas por metro linear.

 

 

 

Fig.1. Novo esquema de monitoramento de espumas e/ou ninfas da cigarrinha-das-raízes em talhão de cana-de-açúcar.

 

 

Fig.2. Número médio de ninfas por metro e quantidade média de metros amostrados em diferentes técnicas de monitoramento da cigarrinha-das-raízes. Usina Denusa, Jacira, GO, 2019. Barras seguidas pela mesma letra ou sem elas não diferem entre si pelo teste de Tukey, 5%.

Se no final da época de ocorrência da cigarrinha ainda houver cerca de 5 ninfas por metro, deve-se realizar outra aplicação do fungo para não deixar os adultos emergirem e colocarem os ovos que permanecerão quiescentes no solo até a próxima safra.

Na atualidade, grande parte das Usinas tem misturado no mesmo tanque um inseticida na menor dose possível e uma ou meia dose do fungo-verde. Os inseticidas que são usados para o controle da cigarrinha são compatíveis com o fungo, que tem propiciado um maior período de atuação. Essa associação tem também criado um efeito adicional de controle de outras pragas, como da broca-da-cana e corós.

O fungo M. anisopliae persiste no solo em baixas umidades, mas a temperatura alta diminui o tempo de permanência de grandes inóculos no solo. Entretanto, sempre um pequeno inóculo persiste no solo de um ano para o outro. Mesmo em altas temperaturas, o fungo fica atuando por 90 a 120 dias no solo, mas com eficácia cada vez menor no controle de cigarrinhas.

Diferente do que era divulgado por muitas empresas no passado, o fungo-verde é muito eficaz no controle da cigarrinha em altas infestações, mais do que tiametoxam e imidacloprido, que falham nessa situação.

A retirada da palha da linha de plantio prejudica a sobrevivência das ninfas no primeiro momento, mas logo após a retirada, as ninfas se aprofundam no solo em busca das raízes, não sendo mais afetadas. E cerca de uma semana depois, a palha retirada volta às linhas pela ação do vento, o que não justifica o investimento com essa prática.

A distribuição de calcário nas linhas de plantio com infestação de ninfas diminui a população da praga e deve ser estudada.

Na Guatemala, o fungo Paecilomyces lilacinus é utilizado no controle de ovos da cigarrinha Aeneolamia spp. (Cercopidae) no solo no período de chuvas, o que pode ser uma estratégia interessante para as nossas espécies aqui no Brasil.

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