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Manejo biológico de sementes e mudas de plantas agrícolas

Um novo horizonte de baixo custo para o controle de pragas e doenças das culturas vai sendo revelado pela Ciência.

 

Por Alexandre de Sene Pinto, Occasio, 28 de abril de 2020
Publicado parcialmente em FEBRAPDP, 4/10/2019.

 

A agricultura convencional vai sofrer profundas mudanças ainda nessa década. Além da automatização e mecanização de diversos procedimentos comuns na lida diária no campo, novas medidas de manejo de pragas e doenças começam a tomar forma, e forma robusta, na atualidade.

A inclusão de micro-organismos no solo, enriquecendo a microbiota, tem melhorado a estrutura do solo, ocupando espaços antes preenchidos por bactérias e fungos que poderiam causar doenças em plantas, melhorando o desenvolvimento de plantas, entre diversos outros benefícios para as culturas.

O tratamento de mudas e sementes com fungos utilizados para o controle de pragas, como Beauveria bassiana, Cordyceps fumosorosea ou Metarhizium anisopliae, tem diminuído a ocorrência de pragas e doenças da parte aérea por semanas ou meses após o uso. Mas não é a ação direta desses fungos que tem controlado esses organismos maléficos para as plantas. Esse tratamento estimula a planta a produzir substâncias, como as peroxidases, que fazem as folhas, caules e até flores e frutos serem menos consumidos pelas pragas ou afetam o desenvolvimento delas e tornam as plantas menos suscetíveis ao desenvolvimento de doenças.

Além de proporcionar um controle inicial de pragas e doenças, diminuindo ou eliminando o uso de químicos, melhora as características gerais do solo, promovendo, a médio e longo prazos, melhorias no teor de matéria orgânica, facilitando a degradação dos diferentes produtos químicos utilizados na agricultura e diminuindo a necessidade de altas doses de fertilizantes para a nutrição das plantas.

Existem pesquisas que mostram diversos resultados com o uso de fungos no tratamento de mudas e sementes, mas quase todos para hortícolas. Recentemente, a Esalq/USP, em Piracicaba, SP, apresentou ao público os resultados de uma pesquisa dessa linha no tratamento de sementes de soja, com resultados muito interessantes no controle de lagartas, como a falsa-medideira e armigera, e de mosca-branca, até 90 dias após o uso. Para se ter uma ideia, o tratamento de sementes de soja chegou a diminuir mais de 60% o consumo das lagartas da falsa-medideira e as que insistiram em comer as folhas tiveram mortalidade superior a 50%. O mesmo aconteceu para a mosca-branca, tanto ninfas, como adultos.

Depois desse ensaio da soja, meu grupo (G.bio – grupo de pesquisa e extensão em controle biológico), sediado no Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto, SP, estudou feijão, berinjela, tomate e até jiló. No caso do feijoeiro, os danos em folhas causados por vaquinhas como Diabrotica speciosa, diminuíram em mais de 90% por mais de um mês após o tratamento de sementes com o fungo B. bassiana. Na cultura da berinjela, além da diminuição da desfolha causada por lagartas, conseguiu-se aumento de produtividade das plantas com o tratamento de mudas com Metarhizium anisopliae e o fungo Trichoderma harzianum endureceu a casca dos frutos.

Porcentagem média de desfolha causada por Diabrotica speciosa e outros crisomelídeos em folhas de feijoeiro após tratamento com Beauveria bassiana em diferentes concentrações.

Os fungos podem ser aplicados nas sementes, em formulações específicas para isso, com água. Ou podem ser aplicados em formulações comuns no sulco de plantio, no caso do tratamento de sementes. Para mudas, elas podem ter as raízes tratadas antes do transplantio ou os sulcos serem tratados. As doses precisam ser mais bem conhecidas, mas o que se sabe é que doses menores parecem ser mais eficazes.

 

Cada produto biológico agirá por um tempo menor ou maior nas distintas culturas agrícolas. Isso é o que a Ciência precisa conhecer e definir nos seus próximos passos. Para cada clima e tipo de solo, provavelmente um produto.

 

O investimento é, muitas vezes, muito menor do que o tratamento aéreo químico ou até biológico, que devem entrar quando o efeito do tratamento de sementes e mudas diminuir. Cada caso deverá ser conhecido individualmente.

Produtividade média de plantas de berinjela após tratamentos de mudas com diferentes produtos.

Os bioprodutos que serão utilizados serão os mesmo que já existem e muito outro surgirão. O que deverá mudar é a formulação, especialmente para o tratamento de sementes. A associação do tratamento de sementes e mudas com as aplicações sistemáticas mais tardias dos mesmos bioprodutos é a próxima etapa a ser conhecida, criando pacotes tecnológicos para as diversas culturas.

Agora é o momento de testar e conhecer. O agricultor deverá esperar a Ciência avançar ou deverá obter bioprodutos de qualidade reconhecida, de empresas sérias, e testar várias doses desses produtos, até chegar em uma recomendação viável para a própria realidade.

O agricultor deve sempre pensar em favorecer a atuação desses micro-organismos, utilizando alguma fonte de alimento para eles (prebióticos), rica em matéria orgânica. A viabilidade desses organismos em solo é de cerca de 120 dias, mas em períodos muito quentes cai para 90 dias, atuando com bastante conforto na safra da maioria das culturas.

Um mundo novo se descortina para a agricultura e começamos a vislumbrar um manejo biológico de precisão, com estratégias múltiplas e pontuais, garantindo alta eficácia e baixo impacto ambiental.

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