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Monitoramento da broca-da-cana com armadilhas de feromônio: cuidado com os falsos-zeros!

Os falsos-zeros podem comprometer todo o manejo da broca e aumentar a infestação em até 5%!

 

Por Alexandre de Sene Pinto, Occasio, 28 de abril de 2020.

 

O sucesso do manejo da broca-da-cana depende da disciplina no monitoramento da mesma, pois a maioria das táticas de controle existentes são muito eficazes. Não se pode errar no monitoramento e nem perder os períodos de controle, específicos para cada tática de controle.

O monitoramento da broca-da-cana era feito das seguintes formas: (a) levantamento de lagartas recém-nascidas (“broca-fora”) em folhas e bainhas da parte superior da planta, em pontos ao acaso ou seguindo alguma estratégia de caminhamento; (b) levantamento de lagartas dentro do colmo (“broca-dentro”) em 2-6 pontos de 1-2 metros lineares, em duas linhas paralelas (obrigatório), ao acaso (sistema “hora-homem”) ou em pontos fixos (entra 25 m na linha, avalia um ponto, e depois a cada 50 m são avaliados novos pontos) por hectare; (c) levantamento do índice de intensidade de infestação (infestação final), que é realizado na colheita (espera-se colher 50 m do talhão, entra 12,5 m na linha, avaliam-se 5 colmos nesse ponto, e a cada 25 m são avaliados novos pontos, até o final da linha, começando novas linhas a cada 100 m).

O monitoramento no sistema “broca-fora” tinha por objetivo determinar o momento ideal de controle (nível de controle), que é variável entre 3-5% de plantas com lagartas caminhando externamente ao colmo da planta, quando se pretendia utilizar inseticidas químicos (clorantraniliprole, clorantraniliprole + lambda-cialotrina, flubendiamida, metoxifenozida + espinetoram, triflumurom, diflubenzurom e diversos outros inseticidas “fisiológicos”) ou biológicos para lagartas pequenas (Beauveria bassiana ou a bactéria Bacillus thuringiensis). O sistema “broca-dentro” tinha por objetivo determinar o momento de liberação da vespinha Cotesia flavipes, onde o nível de controle era 800-1.000 brocas grandes (maiores do que 1,5 cm de comprimento) por hectare. E o levantamento da intensidade de infestação final continua como a melhor estratégia para saber se o manejo adotado foi adequado, pois a infestação máxima aceitável é de 2-3%, dando um “norte” para as estratégias a serem adotadas na safra seguinte.

As estratégias de “broca-fora” e “broca-dentro” têm sido rapidamente substituídas pelo monitoramento de machos utilizando armadilhas de feromônio (de fêmeas virgens para a obtenção de feromônio natural, pois o sintético ainda não existe), que é uma estratégia muito mais simples e barata do que as anteriores. No início foi desenvolvida para a decisão do momento de liberação de Trichogramma galloi para o controle de ovos da broca, mas hoje é usado para todos os produtos.

Essa estratégia preconiza o uso de uma armadilha contendo no interior uma gaiola com 3-4 pupas de fêmeas (de idades diferentes) a cada 20 ou 50 hectares, priorizando armadilhas na parte mais externa das fazendas, setores ou lotes (conjunto de talhões), à beira de matas ou áreas agrícolas vizinhas. A tomada de decisão por uma medida de controle é feita quando 30% das armadilhas coletarem 6 machos em 3 dias (em períodos muito quentes ou secos) ou 10 machos em uma semana cada. Apesar desses dois níveis de controle, é preferido o último, pois o primeiro acumula alguns erros. Mais informações sobre essa estratégia, leia o livro USO DE ARMADILHAS DE FEROMÔNIO PARA A BROCA-DA-CANA, Diatraea SPP., EM CANAVIAIS, 2ª edição, 2019.

Esquema de instalação das armadilhas em um bloco ou fazenda (conjunto de talhões) e avaliação das mesmas uma semana depois.

O sucesso do controle da broca-da-cana, a partir de decisões tomadas no monitoramento de adultos, depende do rigor da aplicação da tática escolhida dentro do período estabelecido. Os inseticidas químicos não podem ser aplicados depois de 15 dias de atingido o nível de controle (NC) nas armadilhas, pois as lagartas já terão entrado no colmo. A microvespa Trichogramma controla apenas ovos da broca-da-cana, então não pode ser aplicada muito antes de 5 e nem depois de 10 dias do NC, pois antes não existem ovos e depois as lagartas já eclodiram. E a vespinha Cotesia não pode ser aplicada muito antes de 21-30 dias do NC, pois as lagartas estarão muito pequenas, e nem muito depois, pois elas já terão se transformado em pupas.

 

Mas muito cuidado quando encontrar uma armadilha sem coleta de machos! Isso não é muito comum e a chance de ser um FALSO-ZERO é muito grande. Para se ter certeza que não é um falso-zero, ao observar as armadilhas elas não podem ter as seguintes situações:

  • armadilha caída no chão. Ela pode ter caído antes de ter tido a chance de coletar algum macho;
  • armadilha com a entrada muito fechada. Uma abertura muito pequena na armadilha pode impedir do macho entrar na mesma à noite;
  • armadilha com cola mal aplicada ou pouco pegajosa. Algumas armadilhas do mercado ou quando muito velhas apresentam a cola interna não muito pegajosa e os machos conseguem escapar do seu interior, nesse caso. às vezes também a cola foi mal aplicada, deixando muitas falhas internas. Na verdade, uma armadilha nessa situação nem deve ser colocada em campo e deve ser descartada;
  • todas as pupas mortas. Pupas que não deram origem a fêmeas não liberaram feromônio;
  • sinais de predação na gaiola. A falta de captura de machos pode ter sido pela predação antes das fêmeas liberarem feromônio;
  • presença de macho dentro da gaiola. Um macho junto com as fêmeas impede que elas liberem feromônio. O macho é identificado por ser menor e por ter a barriga (abdome) magro.

Fêmea (a esquerda) e macho (a direita), mostrando diferença de tamanho de corpo e de abdome.

 

Machos de Diatraea saccharalis capturados na armadilha de fêmeas virgens para posterior contagem, com detalhe da gaiola de bob.

Caso a armadilha tenha registrado um falso-zero, ela não deve ser considerada na porcentagem de armadilhas do bloco ou fazenda (conjunto de talhões).

Algumas armadilhas do mercado apresentam problema com a gaiola de liberação de feromônio e acabam por capturar poucos ou nenhum macho. Para se avaliar se essa armadilha é funcional, substitua a gaiola dela por uma tradicional, feita de bob e tecido do tipo tule ou organza. Coloque algumas armadilhas próximas, com os dois tipos de gaiolas e com fêmeas já nascidas, e no dia seguinte avalie. Elas precisam pegar quantidades semelhantes, caso a gaiola da armadilha avaliada seja boa.

Avaliando a qualidade das armadilhas e descartando os falsos-zeros, o monitoramento de adultos com armadilhas de feromônio é a estratégia mais atual, simples e de baixo custo, com grande precisão nas tomadas de decisão.

 

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6 Comentários

  1. Milton Cesar de Paiva
    28 de abril de 2020 at 15:30 — Responder

    Professor fiquei com uma dúvida sobre a área de instalação da armadilha para captura dos machos. Para áreas onde o monitoramento não é muito confiável e com tamanho mais próximo de 50ha posso instalar duas armadilhas em vez de 1 ?

    • 28 de abril de 2020 at 15:47 — Responder

      Isso mesmo! Em áreas que exigem uma armadilha, sempre instalar duas, uma bem perto da outra, e se as duas capturarem adultos, somar o valor.

  2. Laura
    29 de abril de 2020 at 22:18 — Responder

    Boa noite Alexandre.
    Matéria muito boa, estou acompanhando e a metodologia de armadilhas para broca está bem sólida.
    Mas e a metodologia para encontrar NC para cigarrinha por armadilhas?

    • 29 de abril de 2020 at 23:59 — Responder

      Laura, a metodologia para monitoramento de adultos de cigarrinhas só serve para as áreas onde você perdeu o controle de ninfas. Se você deixar as ninfas chegarem na fase adulta para monitorá-las, já amargou um bom prejuízo. Tem que controlar antes dessa fase. Perdendo o controle, o nível sugerido é de 5 adultos por placa adesiva.

  3. Beatriz Santos Domingues
    1 de maio de 2020 at 12:38 — Responder

    E quando possui ataque de predadores nas armadilha? Sempre que isso ocorre mudamos as armadilha de lugar e trocamos, porém isso eleva o tempo de revisão. Tem alguma orientação para isso, pra ajudar a termos um resultado melhor e mais acertivo.

    • 1 de maio de 2020 at 14:05 — Responder

      Beatriz, se a predação ocorreu e você tem um “zero”, considere como falso-zero e desconsidere essa armadilha na avaliação de todas do bloco ou fazenda (conjunto de talhões). Quando for instalar a outra, instale em outro ponto, que pode ser a uns 5 metros dela, pois a linha de atuação de um grupo de predadores não é tão longa. Se a predação é muito alta num ambiente inteiro, instale suas armadilhas em estacas tratadas com graxa ou outra coisa pegajosa na base, mesmo que a armadilha fique abaixo da folhagem da cultura, pois isso não interfere na captura.

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