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Trichogramma galloi: a liberação em dose errada pode comprometer o controle da broca-da-cana

Diferentemente dos inseticidas químicos e dos biológicos à base de micro-organismos (fungos, bactérias e vírus), a liberação de qualquer parasitoide tem uma relação muito mais delicada com a dose utilizada.

 

Por Alexandre de Sene Pinto, Occasio, 10 de maio de 2020.

 

Na atualidade, existe uma vasta gama de inseticidas químicos e biológicos para o controle de pragas das diversas culturas agrícolas no mundo. Apesar de muitas pessoas comentarem que os produtos biológicos são mais técnicos do que os produtos químicos, ambos exigem muita tecnologia para serem usados corretamente. Um dos fatores que afeta drasticamente a eficácia de controle de ambos é a dose utilizada.

Diferentemente dos inseticidas químicos e dos biológicos à base de micro-organismos (fungos, bactérias e vírus), a liberação de qualquer parasitoide tem uma relação muito mais delicada com a dose utilizada. Tanto para os químicos como para os biológicos, o aumento da dose leva ao aumento da eficácia de controle da praga-alvo. Entretanto, essa eficácia se estabiliza a partir de uma certa dose de químicos ou de microbiológicos, o mesmo não acontecendo com os parasitoides, onde a eficácia diminui drasticamente com o excesso de organismos liberados em campo (Figura 1).

Figura 1. Curvas hipotéticas que representam a eficácia de controle de pragas dos produtos (esquerda, inseticidas, químicos e a base de fungos, bactérias ou vírus, e direita, parasitoides) em função da dose aplicada.

Essa diminuição da eficácia dos parasitoides a partir de certa quantidade liberada pode estar ligada a dois fatores: confusão no reconhecimento dos hospedeiros (pragas) marcados como parasitados e competição por alimento (praga) entre as fêmeas parasitoides.

À medida que o número relativo de parasitoides aumenta, ocorrem mais encontros entre eles, levando a uma diminuição na eficiência da busca e na taxa de parasitismo (BEDDINGTON, 1975), ocorrendo aumento no tempo de busca (VISSER et al., 1999; HARVEY et al., 2013).

Os parasitoides de ovos, por exemplo, ao localizarem seus hospedeiros, medem com as suas antenas o volume do ovo a ser parasitado (para saber quantos ovos seus podem ser colocados dentro do ovo hospedeiro), fazem uma picada de prova para saber se o ovo está saudável e nutritivo, realizam a oviposição dentro do ovo hospedeiro, se alimentam do líquido que extravasa do ovo (PAK, 1988), esterilizam o orifício que deixaram (para impedir a entrada de micro-organismos que poderiam matar seus filhos) e, por último, marcam o ovo com uma substância que permite às demais fêmeas da mesma espécie identificarem que aquele ovo já foi parasitado ou até rejeitado (UENO; TANAKA, 1999; CHEN; BORDINI; STANSLY, 2016) (Figura 2).

Figura 2. Sequência de parasitismo de Trichogramma sobre ovo do hospedeiro (praga) (adaptado de PAK, 1988, incluindo informações de UENO; TANAKA, 1999).

O controle biológico da broca-da-cana em canaviais do Brasil tem sido realizado cada vez mais pelo parasitoide de ovos Trichogramma galloi, pois Botelho (1985) verificou que a fase de ovo é o fator-chave de crescimento populacional da praga e a que deveria ser priorizada no manejo.

A técnica de liberação de um parasitoide, se não bem desenvolvida, pode inviabilizar um programa de controle biológico (PINTO; PARRA, 2002) e Pinto et al. (2003) constataram que a liberação de pupas de T. galloi oferece melhor controle da broca-da-cana do que a liberação de adultos. Desde então, a liberação de T. galloi na forma pupal passou a prevalecer sobre a forma adulta no Brasil, mas com os parasitoides protegidos por cápsulas, pois Pinto et al. (2003) concluíram que a liberação de grandes quantidades de parasitoides em um mesmo ponto tem que ser feita de forma protegida para se evitar a predação.

Entretanto, Mills et al. (2000) e Rajendran e Mohammed (1998) verificaram que a liberação por espalhamento de pupas desprotegidas de Trichogramma no campo proporcionaram um bom controle da praga. Posteriormente, vários estudos mostraram que os predadores têm dificuldade em localizar as pupas de Trichogramma espalhadas pelas plantas e solo das lavouras, pois a quantidade por área é muito pequena.

Seguindo essa linha de pesquisa, vários estudos foram conduzidos pelo G.bio (Grupo de Pesquisa e Extensão em Controle Biológico) coordenado pelo Prof. Dr. Alexandre de Sene Pinto, no Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto, SP. Essas pesquisas consolidaram a técnica de espalhamento de pupas desprotegidas de Trichogramma.

 

Figura 3. Parasitismo total (%) de ovos da broca-da-cana por Trichogramma galloi liberado em diferentes quantidades por espalhamento de pupas ou na forma adulta em cana-de-açúcar (CARVALHO, 2013). Tukey (p<0,03).

Entretanto, a dose a ser liberada era uma dúvida ainda. Broglio-Micheletti et al. (2007) e Botelho et al. (1999) afirmaram que são necessárias três liberações ao redor de 200.000 adultos de T. galloi por hectare para o melhor controle da broca-da-cana.

Por outro lado, Nava, Pinto e Silva (2009) relataram que três liberações de 50.000 adultos de T. galloi associadas com duas de Cotesia flavipes conseguiram diminuir significativamente a infestação da broca-da-cana em canavial, igual ao trabalho de Botelho et al. (1999), mas que realizou três liberações de 200.000 adultos.

Lembrando que Pinto et al. (2003) concluíram que liberações de pupas são mais eficazes no controle da broca-da-cana do que a de adultos, a quantidade a ser liberada de pupas deverá ser menor do que aqueles observados para adultos por Broglio-Micheletti et al. (2007) e Botelho et al. (1999). Vale lembrar, também, que o trabalho de Botelho et al. (1999) não testou diferentes quantidades do parasitoide no controle da broca-da-cana.

Figura 4. Parasitismo total (%) de diferentes infestações de ovos da broca-da-cana de diferentes quantidades de do parasitoide Trichogramma galloi em cana-de-açúcar (BERTATE, 2017). Tukey (p<0,05).

O trabalho de Broglio-Micheletti et al. (2007) foi o único que avaliou, até aquela época, a quantidade liberada de adultos de T. galloi para o controle de ovos de D. saccharalis. Esse trabalho será rapidamente discutido para validar os resultados novos que serão apresentados para a liberação de pupas do parasitoide. No trabalho citado, a avaliação de parasitismo foi feita sempre após dois dias da liberação de T. galloi e se sabe que o maior parasitismo é realizado no terceiro dia após a liberação (PINTO, 1999; PINTO et al., 2003). Os autores utilizaram posturas de fêmeas novas e se sabe que posturas com muitos ovos diminuem o parasitismo de T. galloi, pois o mesmo parasita os ovos da periferia da postura e deixa os ovos do interior sem parasitar (PINTO, 1999), sendo essa uma falha experimental bastante grave, que certamente aumentou a quantidade de parasitoides liberada para conseguir parasitar tantos ovos em um único ponto (simulando, sem querer, infestação demasiadamente alta e não real). Os autores não destacaram a infestação de ovos da praga utilizada e Bertate (2017) verificou que esse fator interfere muito na eficácia da quantidade liberada do parasitoide.

Visto isso, até 2013 nenhum trabalho havia testado efetivamente as diferentes doses de T. galloi no controle da broca-da-cana em cana-de-açúcar.

Tabela 1. Índice de intensidade de infestação (%) no topo do colmo (infestações novas) de três ensaios distintos testando diferentes doses liberadas de Trichogramma galloi no controle da broca-da-cana no Estado de São Paulo (CARNEIRO; PINTO, 2019). Tukey (p<0,05).

 

Carvalho (2013), estudando a simulação da liberação aérea de T. galloi em canavial pela técnica de espalhamento de pupas desprotegidas, verificou ser esta técnica viável e eficaz, sendo a quantidade a ser liberada igual a recomendada para adultos ou pupas em cápsulas, ou seja, de 50.000 por hectare (Figura 3). Apesar da dose 100.000 vespinhas por hectare mostrar maior parasitismo no ensaio de Carvalho (2013), não houve diferença significativa entre essa dose e a usual de 50.000 vespinhas por hectare (Figura 3).

 

Bertate (2017) conseguiu ótimos resultados de liberações de T. galloi sobre infestações artificiais de ovos de D. saccharalis em cana-de-açúcar (Figura 4), confirmando que a liberação de 50.000 pupas por hectare é a mais adequada para qualquer nível de infestação da praga até quase 400.000 ovos por hectare.

Figura 5. Índice de intensidade de infestação (%) da broca-da-cana no terço superior (topo) dos colmos após diferentes quantidades de Trichogramma galloi liberadas (CARNEIRO; PINTO, 2019). Tukey (p<0,09).

Carneiro e Pinto (2019) realizaram um estudo mais amplo para o CNPq sobre as doses de T. galloi no controle de D. saccharalis em dois níveis populacionais diferentes e concluíram que a liberação de 50.000 parasitoides por hectare (três liberações em semanas seguidas) é a melhor dose (Tabela 1), especialmente para áreas onde as armadilhas capturaram mais do que 10 machos por armadilha em uma semana (PINTO; RODRIGUES; OLIVA, 2019), sendo que em algumas situações a liberação de doses maiores poderiam até diminuir a eficácia de parasitismo (Figura 5) e comprometer o controle da broca-da-cana.

 

Portanto, a quantidade de 50.000 parasitoides por hectare é a recomendada para o controle da broca-da-cana em quaisquer infestações a partir do nível de controle de 10 machos por armadilha por semana.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEDDINGTON, J.R. Mutual interference between parasites or predators and its effect on searching efficiency. Journal of Animal Ecology, v.44, p.331-340, 1975.

BERTATE, L. de M. Quantidade liberada de Trichogramma galloi para o controle de diferentes densidades de ovos de Diatraea saccharalis em cana-de-açúcar. 2017. 36f. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso em Agronomia) – Centro Universitário Moura Lacerda, Ribeirão Preto, 2017.

BOTELHO, P. S. M. Tabela de vida ecológica e simulação da fase larval de Diatraea saccharalis (Fabricius 1794) (Lepidoptera: Pyralidae). 1985. 110f. Tese (Doutorado em Entomologia) – Esalq/USP, Piracicaba, SP.

BOTELHO, P.S.M.; PARRA, J.R.P.; CHAGAS NETO, J.F.; OLIVEIRA, C.P.B. Associação do parasitoide de ovos Trichogramma galloi Zucchi (Hymenoptera: Trichogrammatidae) e do parasitoide larval Cotesia flavipes (Cam.) (Hymenoptera: Braconidae) no controle de Diatraea saccharalis (Fabr.) (Lepidoptera: Crambidae) em cana-de-açúcar. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v.28, n.3, p.491-496, 1999.

BROGLIO-MICHELETTI, S.M.F. et al. Efeito do número de adultos de Trichogramma galloi Zucchi, 1988 (Hymenoptera: Trichogrammatidae) liberados em semanas sucessivas, para o controle de Diatraea saccharalis (Fabricius, 1794) (Lepidoptera: Crambidae). Ciência e Agrotecnologia, v.31, n.1, p.53-58, 2007.

CARNEIRO, R.P.; PINTO, A. de S. Quantidade liberada de Trichogramma galloi para o controle de Diatraea saccharalis baseada na captura de machos em armadilhas de feromônio. Relatório final do PIBIC-CNPq, 2019. (Dados não publicados)

CARVALHO, J.A.V. de. Quantidade liberada de Trichogramma galloi, simulando uma aplicação aérea, no controle de Diatraea saccharalis em canavial. 2013. 36f. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso de Agronomia) – Centro Universitário Moura Lacerda, Ribeirão Preto.

CHEN, X.L.; BORDINI, G.B.; STANSLY, P.A. Avoidance of parasitized hosts by female wasps of Tamarixia radiata (Hymenoptera: Eulophidae), parasitoid of Diaphorina citri (Hemiptera: Liviidae), vector of citrus greening disease. Florida Entomologist, v.99, p.311-313, 2016a.

HARVEY, J.A.; POELMAN, E.H.; TANAKA, T. Intrinsic inter- and intra-specific competition in parasitoid wasps. Annual Review of Entomology, v.58, 333-351, 2013.

MILLS, N. et al. Mass releases of Trichogramma wasps can reduce damage from codling moth. California Agriculture, v.54, n.6, p.22-25, 2000.

NAVA, D.E.; PINTO, A. de S.; SILVA, S.D. dos A. Controle biológico da broca da cana-de-açúcar. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2009. 28p. (Documentos / Embrapa Clima Temperado, 287)

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PINTO, A. de S. Comparação de técnicas de liberação e atuação de Trichogramma galloi Zucchi, 1988 em infestações artificiais de Diatraea saccharalis (fabr., 1794) prejudiciais à cana-de-açúcar 1999. 83f. Tese (Doutorado em Entomologia) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Piracicaba.

PINTO, A. de S.; PARRA, J.R.P. Liberação de inimigos naturais, cap.19. In: PARRA; J.R.P.; BOTELHO, P.S.M.; CORRÊA-FERREIRA, B.S.; BENTO, J.M.S. (orgs.). Controle biológico no Brasil: parasitóides e predadores. São Paulo: Manole, 2002. p.325-342.

PINTO, A. de S.; PARRA, J.R.P.; OLIVEIRA, H.N. de; ARRIGONI, E. de B. Comparação de técnicas de liberação de Trichogramma galloi Zucchi (Hymenoptera: Trichogrammatidae) para o controle de Diatraea saccharalis (Fabricius) (Lepidoptera: Crambidae). Neotropical Entomology, v.32, n.2, p.311-318, 2003.

PINTO, A. de S.; RODRIGUES, L.R.; OLIVA, M.B. Uso de armadilhas de feromônio para a broca-da-cana, Diatraea spp., em canaviais. Piracicaba: Occasio, 2018. 24p.

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